Pernambuco

ESTAR JUNTO – ESPAÇOS E LUGARES COLETIVOS E COLABORATIVOS INDEPENDENTES DAS ARTES VISUAIS NO RECIFE
Joana D’Arc de Sousa Lima (1)

Apresentação
Esse texto pretende, de maneira breve, apresentar parte da cena das artes visuais da cidade do Recife, por meio de uma breve mirada sobre o terreno onde se instituem dinâmicas de existência das iniciativas coletivas, colaborativas e independentes que há pelo menos dez anos vêm atuando de maneira propositiva tanto na ampliação da formação em artes visuais, quanto na exibição e produção de trabalhos e projetos artísticos.  Essa rápida mirada forma uma dada cartografia das artes visuais, obviamente que haverá ausência de muitos agrupamentos e agenciamentos, contudo penso que sempre é possível ampliar, alargar e se inserir. Fica então o convite para os ausentes se fizerem presentes entrando em contato e enviando suas histórias (2).

Acho importante mencionar que experiências de agrupamentos e ateliês coletivos na cena artística da cidade do Recife/Olinda foram um dado relevante trazido pelas memórias dos artistas e efetivamente registrado em pesquisas e na historiografia da arte em Pernambuco (3). Assim, adianto aos leitores que na primeira parte desse texto vou rapidamente mencionar algumas das dinâmicas desses espaços colaborativos, e na segunda parte do texto vou apresentar com mais detalhes o espaço colaborativo independente chamado de Casa Maumau. A escolha em destacar esse espaço (Maumau) se deve por algumas razões que passo a citar: pela forte e ousada presença desse coletivo na atualidade, por se apresentar (discursivamente e em práticas propositivas) como um espaço de resistência frente ao golpe político ocorrido este ano no país, e, porúltimo, nem por isso menos relevante, por ter como integrante no “grupo gestor” o artista Maurício Castro (4) que jána segunda metade dos anos 1980,vem potencializado ações coletivas das artes plásticas na cidade, tanto na organização de espaços coletivos quanto na proposição de eventos e ações colaborativas no campo das artes. A exemplo da proposição da Semana de Artes Visuais da Cidade do Recife (SPA das Artes) (5), sendo ele um dos fundadores e articuladores das primeiras edições, em 2002, juntamente com Fernando Duarte, Fernando Augusto, José Paulo, Rinaldo Silva, entre outros.

Construir, portanto, parte das experiências da Casa Maumau,com foco na atuação do artista Maurício Castro, me possibilita recuperar vários espaços colaborativos ao longo da história das artes em Pernambuco, a exemplo do Ateliê Quarta Zona de Arte (1988-1994); em 2001, o atelier Submarino, juntamente com Isabela Stampanoni, Juliana Notari, Jacaré e Fernando Augusto; o Coletivo Branco do Olho, no qual Castro teve uma passagem, mais recentemente o Ateliê Peligro, e, desde 2011, na Casa Maumau.

Esses espaços e outros que pulsam e/ou pulsaram no território tênue das artes visuais na cidade integram artistas inquietos, ousados e avessos ao sistema oficial das artes. Em alguns casos, críticos ao estabelecido e ao institucionalizado, em outros casos, aqueles que não conseguiram se adaptar ao sistema, ou ainda aqueles que desacreditam no próprio sistema, mas certamente todos se uniram, em algum momento, pelos laços afetivos em que suas biografias se entrelaçaram e dado momento propuseram coletivamente fazer algo junto. Existe uma política do afeto que possibilitou e possibilita pessoas se reunirem em torno de uma causa, um fazer, um aprender junto, para compartilhar da comida, para dançar, e assim, inventam-se existências e se inventam lugares de produção, formação e exibição das artes visuais independentes.

Repito novamente, por ser uma pesquisa em curso e dada as urgências dos escritos e da vida, alguns coletivos, espaços e iniciativas ficaram apenas na latência de breves descrições informativas, outros ainda poderão não estar presentes hoje, mas certamente no amanhã pulsaram visíveis e com força. Me perdoem os lapsos do esquecimento, reafirmo que esse texto tem caráter mais descritivo, cartográfico que efetivamente empreender uma análise formal de cada um deles e ou de um conjunto de coletivos autodependentes.

I
Encontros, ações e ajuntamentos de artistas: A dimensão da amizade e da auto dependência
A amizade como potência criativa, fortalecedora dos laços de permanência, de solidariedade, do cuidado, do afeto desses coletivos e agenciamentos de artistas pode ser lida primeiramente sob as lentes do filósofo Michel Foucault (6) (2004).

Em uma entrevista cujo tema versa sobre sexo, poder e a política da identidade, Michel Foucault fala, em fragmento trazido aqui, particularmente sobre a amizade. Fragmento este que considero muito interessante. Daí reproduzi-lo aqui para iniciar nossa conversa sobre os coletivos independentes do Recife.

Se há uma coisa que me interessa hoje é o problema da amizade. No decorrer dos séculos que se seguiram à Antiguidade, a amizade se constituiu em uma relação social muito importante: uma relação social no interior da qual os indivíduos dispõem de uma certa liberdade, de uma certa forma de escolha (limitada, claramente), que lhes permitia também viver relações afetivas muito intensas. A amizade tinha também implicações econômicas e sociais — o indivíduo devia auxiliar seus amigos, etc. Eu penso que, no séc. XVI e no séc. XVII, foi desaparecendo esse tipo de amizade, no meio da sociedade masculina. E a amizade começa a tornar-se outra coisa. A partir do séc. XVI encontram-se textos que criticam explicitamente a amizade, que é considerada como algo perigoso. O exército, a burocracia, a administração, as universidades, as escolas, etc. — no sentido que assumem essas palavras nos dias de hoje — não podiam funcionar diante de amizades tão intensas. Podemos ver em instituições um esforço considerável por diminuir ou minimizar as relações afetivas. Neste caso, em particular, nas escolas. Quando se inauguraram as escolas secundárias que acolheram alguns jovens rapazes, um dos problemas foi o de saber como se podia não somente impedir as relações sexuais, claramente, mas também impedir as amizades. Sobre o tema da amizade, pode-se estudar, por exemplo, as estratégias das instituições jesuítas — eles estavam cientes da impossibilidade de supressão da amizade, eles tentaram então utilizar o papel que tinha o sexo, o amor, a amizade e de limitá-los. Deveríamos agora, depois de estudar a história da sexualidade, tentar compreender a história da amizade. É uma história extremamente interessante. (Michel Foucault, 2004, p. 272 a 273).

Diante do exposto, sabemos de antemão o que mais interessava ao autor, em toda sua obra era a investigação árdua com as instituições disciplinadoras (o exército, a burocracia, a administração, as universidades, as escolas, asilo, as clínicas, entre outras) e suas produções discursiva em relação ao saber poder. Mas o Foucault chama atenção para o tema da amizade (sem perder suas preocupações no que tange a refletir sobre disciplina/instituição) e sua historicidade. Em que momento a amizade passa a ser concebida como um perigo social? Como e de que forma a amizade vai sendo construída enquanto discurso de perigo? E por quê? Diz o autor a amizade se constituía em relação social “no interior da qual os indivíduos dispõem de uma certa liberdade, de uma certa forma de escolha (limitada, claramente), que lhes permitia também viver relações afetivas muito intensas”. A amizade enquanto relação social instituía produções de mundos, solidariedades, afetividades e trocas sexuais. Vista, portanto, como perigo, sendo também impossível de exterminar tal relação, no século XVI,por meio das instituições escolares, buscou-se controlar o perigo e normatizar as relações de amizade.

Nos coletivos e iniciativas de artistas, a amizade tem um papel aglutinador entre os participantes. Michel Foucault aponta a amizade como relação perigosa porque une e produz subjetividades, tornando-se criadora. Vista sob esse prisma, as instituições religiosas e a escola precisaram disciplinar e controlar os laços afetivos (sexuais) constituídos pelas relações sociais de amizade (7). O papel da amizade fortalece o gesto político que agrupa pessoas em espaços públicos com propósitos de fabricação de ações para o bem comum.

Com base na tese da pesquisadora e artista Cláudia Paim (2009),que versa sobre coletivos de artistas na América Latina, cuja presença de um tecido afetivo é um dado relevante, pude apreender dois conceitos de Michel Maffesoli: o ideal comunitário como um elemento de sociabilidade onde “vive-se uma forma de estar-junto que não está voltada para o longínquo, para a realização de uma sociedade perfeita no porvir, mas que se dedica a organizar o presente” (MAFFESOLI, 1995, p. 17 apud PAIM, 2009, p.20). Segundo Paim, “as associações contemporâneas ocorrem mais por fatores culturais que sociais, é o estar-junto que opera para estas uniões”(idem).

De acordo com Cláudia Paim (2009), foi a partir dos anos 1990 do século XX que práticas associativas receberam um impulso decorrente de alguns fatores históricos, sociais, políticos e econômicos, a saber:

“a retração do mercado (desestímulo ao trabalho solitário e voltado para galerias); o fim das ditaduras militares na América Latina e subseqüentes movimentos de re-democratização com o fato de vir à tona várias micro-associações que serviram de base para a formação de organizações representativas e como exemplo de ação colaborativa. Há ainda o agravamento da crise econômica nos países latino-americanos e o sucateamento das instituições públicas que deveriam contemplar a cultura. Por outro lado, houve incremento na implantação de cursos de artes que fomentam a convivência e possibilitam a crítica e a atuação. Devem ser consideradas ainda outras formas de sociabilidade que surgem com a aceleração e a simultaneidade das comunicações, com a flexibilização do trabalho e a globalização econômica.” (Paim, 2009, p. 15).

Segundo o artista/pesquisador Newton Goto (8), desde o início da década de 2000 já existiam algumas reflexões críticas que buscavam afirmar uma narrativa sistematizante sobre a nova emergência dos coletivos de artistas no Brasil ocorrida a partir da metade dos anos 90:

“Ricardo Basbaum, Ricardo Rosas, Flavia Vivacqua e eu fomos alguns dos primeiros a refletir, publicar e debater sobre a cena daquele re-arranjo produtivo ativista e coletivo que eclodia por todo o Brasil no início dos anos 2000. Alguns de nós, a partir de diferentes trajetórias, já estávamos bastante ativos nesse sentido desde antes da exposição Panorama da Arte Brasileira de 2001, ocorrida no MAM-SP, que dedicou parte significativa de sua curadoria e publicação para abordar a questão dos coletivos de artistas, tornando-se assim uma referência no meio das artes visuais. Diga-se, inclusive, que Basbaum foi um dos curadores daquela exposição. Graziela Kunsch, Edson Barrus e Juliana Monachesi também já elaboravam um discurso reflexivo e abrangente sobre a cena dos coletivos de artistas desde aquele início de década, entre 2002 e 2003. Assim como, até 2008 – considerando o ano do primeiro grande upgrade do projeto Circuitos compartilhados – André Mesquita, Gavin Adams, Bráulio Britto, Daniela Labra e Ericson Pires foram outros artistas e pesquisadores que também se propuseram a construir um discurso crítico sobre essa cena” (Goto, Newton, relato cedido à autora, 2017).

Na esteira de uma perspectiva crítica, ou de análise histórica crítica, podemos abordar as pesquisas e os projetos do artista e pesquisador Newton Goto (8), que se desdobram em práticas de compartilhamentos, trocas e circulação de experiências, releituras críticas e históricas sobre a cena contemporânea das artes visuais, gestos, objetos e vídeos, ativismo e ativação no então denominado por ele de “circuitos autônomos”. Essa nomenclatura difundida pelo artista ganha espessura de conceito quando operado nas narrativas teóricas desenvolvidas por ele (9) e nas reverberações práticas: diversas plataformas virtuais, ações coletivas, agrupamentos ativados, coletivos autônomos, publicações, compartilhamentos de acervos e redes de trocas e solidariedades. Dentre essas realizações, uma das mais interessantes proposições é o projeto intitulado Circuitos Compartilhados – Registro de ações artísticas em circuitos autodependentes (10). Ao mesmo tempo que realizou um amplo e generoso mapeamento, produziu uma ativação em cada local que a proposição se infiltrava, gerando encontros entre artistas e os agentes da dinâmica das artes, isso muitas vezes desdobrou na realização de ações artísticas, performances, produção de documentários sobre a cena artística de cada local, serviu de incentivo para a organização de novos coletivos, aproximou artistas de diversas gerações, enfim, em cada canto do país que chegou, produziu o que estamos chamando de ativação. Esse foi o caso ocorrido aqui na cidade do Recife, em 2007: a passagem de Goto produziu uma inquietude entre os artistas e os grupos autônomos, provocou encontros geradores de muitas conversas, trocas de saberes e de narrativas de memórias sobre o meio artístico da cidade do Recife, convergências que motivaram a realização de um documentário intitulado Duplo Mortal Parafuso: estratégias das artes na cidade do Recife 1980/1990, com minha participação como roteirista e pesquisa histórica, Maurício Castro como diretor. Esse documentário faz parte do acervo Circuitos Compartilhados. Vale citar a reunião de artistas ocorrida no ateliê do artista José Paulo, com a presença do Goto, em que muitos dos suas observações sobre o meio artístico de Curitiba serviu para pensarmos nossa experiência e as maneiras de fazer e produzir por aqui. Desde então, venho pesquisando sobre esses espaços, esses agenciamentos, olhando as maneiras de organização fora do estabelecido. Esse relato revela em parte os impactos e as reverberações produzidas pelo Circuitos Compartilhados.

Esses encontros, conexões de afinidade, trocas de experiências e diálogo cultural, enfim, as transversalizações dos saberes, podem estimular ou adensar novas situações de acontecimentos no meio artístico, como já dito. Goto relata uma convergência ainda anterior com artistas recifences que também repercutiu no circuito de arte:

Em julho de 2001 orientei uma oficina de desenho no Festival de Arte da Cidade de Porto Alegre, Festival em que também estavam presentes e orientando cursos os artistas recifenses Maurício Castro e Rinaldo, àquela época envolvidos com a Fundação de Cultura do Recife. Nos conhecemos no Festival. Mesmo em viagem, eu estava concluindo um artigo sobre o projeto de arte Interferências Urbanas, realizado no Rio de Janeiro, texto que seria publicado no começo de agosto no jornal Gazeta do Povo, em Curitiba, dando continuidade a uma série de publicações que fiz no jornal naquele ano, focadas na cena autônoma nas artes visuais no Brasil. Rinaldo e Maurício ficaram muito interessados no contexto que eu abordava. Maurício comentou que em Recife também havia uma tradição de ateliês coletivos, como o Quarta Zona, assim como uma tradição de pintores muralistas na cidade – as brigadas muralistas – e que naquele momento ele e amigos tocavam o ateliê Submarino. Maurício vislumbrou então que queria fazer algum projeto de política cultural sobre aquele tema, pois estavam planejando ações para as artes visuais em Recife para o ano seguinte. Na capital gaúcha fizemos algumas saídas juntos pela Cidade Baixa, passamos pela Terreira da Tribo, assistimos a uma peça do grupo de teatro de rua Oi Noís Aqui Traveiz, visitamos o espaço autônomo de arte Torreão. Eis que em 2002 a Prefeitura de Recife realiza o primeiro SPA das Artes – Semana de Artes Visuais do Recife, encontro para o qual fui convidado como orientador de oficina de arte. Maurício, que junto com Rinaldo era um dos coordenadores do SPA, disse que uma das inspirações para o formato e as programações  do SPA foi as conversas que tivemos em Porto Alegre, sobre os coletivos de artistas e a cena autônoma das artes visuais. Tanto que muitos dos convidados do primeiro SPA atuavam nesse circuito autônomo. Em 2002 eu residia no Rio de Janeiro, onde cursava mestrado na UFRJ, e durante a pré-produção do SPA o artista José Paulo – à época coordenador de artes plásticas da Fundação Cultural do Recife – telefonou para mim buscando contato com algumas participações “cariocas”, entre as quais articulei mais diretamente com Ricardo Pimenta (Galeria do Poste), Júlio Castro (Arte de Portas Abertas e Interferências urbanas) e Edson Barrus (Açúcar Invertido e Rés do Chão)”. (Goto, Newton, relato cedido à autora, 2017).

De lá para cá o artista pesquisador Goto tem continuado suas investigações e ativações com projetos tão instigantes quanto o já citado, como esse Livre-troca no qual estamos envolvidos nesse momento. São proposições que apontam para uma maneira crítica de dizer e construir, dentro do campo das artes, espaços e posições de enfrentamento ao estabelecido e institucionalizado. Isso nos interessa pensar! Para poder ativar e acionar passados e presentes na construção de uma contra história das artes no Recife.

II
Dinâmicas,estratégias e astúcias das Artes na cidade do Recife
No Recife, a década de 1990 é marcada pela presença de coletivos que se articularam no final dos anos 1980 (Quarta Zona de Arte) (11) e por outros que vingaram nos anos 1990, como o Grupo Camelo (1996) formado pelos artistas Marcelo Coutinho, Jobalo, Oriana Duarte, Paulo Meira e Ismael Portela; Carga e Descarga (12) por Flávio Emanuel, Márcio Almeida, Dantas Suassuna e Maurício Silva;e, em 1994 o Molusco Lama, que falarei com mais vagar em breve.

Essa década marca uma intensificação do debate em torno da arte contemporânea. À medida em que outros circuitos oficiais vão se fortalecendo, mapeamentos artísticos em âmbito nacional serão propostos – mapeamento Antártica Arte Contemporânea –, institutos culturais vinculados ao poder financeiro serão fundados, lei de incentivo à cultura – entre outras lógicas institucionais que, de certa maneira, impulsionam os debates em torno da produção contemporânea, o circuito das artes e a circulação dos trabalhos e da produção artística. Dentro desse panorama de um processo de “globalização interna”, outros grupos vão se articulando por meio da amizade e pelo desejo de integrar-se ao discurso e dinâmica da arte contemporânea que vai ganhando espaço e legitimidade. Também é fundamental a construção de um circuito para as artes plásticas nessa nova “roupagem” contemporânea. Então, ampliar os espaços de exibição, de formação e de produção potencializa o fortalecimento das artes na cidade e sua reverberação para outros espaços e estados brasileiros, possibilitando a permanência dos artistas por aqui.

A segunda metade da década de 1990 marca a emergência do coletivo artístico multicultural Molusco Lama (13), organizado na cidade de Olinda. Abrigados em duas casas na bucólica praia dos Milagres, cerca de 40 pessoas habitaram ou transitaram por lá, criando um pouco de tudo, ou como talvez prefiram os “moluscos”, muito de nada. Com teor de crítica social, crítica ao estatuto da arte, seus agentes legitimadores e aos espaços institucionais, pelo uso da ironia, do deboche e da greia.Com muita ousadia, o Molusco Lama usou de ações, intervenções, performances e happenings para existir como um movimento fluido no circuito das artes em Recife e Olinda. Mais que um grupo, me parece que o Molusco Lama foi um fluxo que ocupava os espaços e cenários das duas cidades, por vezes o espaço do museu e dos salões de arte para provocar e desestabilizar o senso comum já cristalizado nessas instituições.

O Molusco foi integrado inicialmente por Lourival Batista Cuquinha, Fernando Peres, Daniela Brilhante, Paulo do Amparo e Ernesto Teodósio. Entre coletivos mais fixos e iniciativas de artistas eles criaram o Molusco, O Telephone Colorido e o Valdisnei (14) (Cuquinha e Dani Brilhante, mais especificamente). Entre amizades compartilhadas e namoros declarados, esses coletivos e iniciativas artísticas marcaram a entrada desses jovens no campo das artes em Pernambuco e com extensão no âmbito nacional, por meio de suas entradas em editais de salões e outros eventos.

Além de artes plásticas e música, esse fenômeno dos trópicos e psicotrópicos enveredou pela Sétima Arte. O Resgate Cultural, de 2001, é um curta que conta a história de um fictício sequestro do escritor Ariano Suassuna, tendo como uma das exigências para libertá-lo a mudança de curso do rio Capibaribe, que deveria dobrar à esquerda na Avenida Conde da Boa Vista e seguir no sentido centro-subúrbio.

Embora finalizado, o movimento Molusco Lama ainda ecoa e reverbera no trabalho individual de alguns de seus integrantes, como o músico e professor Gustavo Grilo, ou Grilovsky, ou ainda Jazzy Grilo, integrante da banda Monstro Amor, que lançou seu segundo CD em 2012. Outro integrante, Fernando Peres, continua com seu ativismo artístico e cultural por meio do Lesbian Bar. Já Lourival Batista, ou Cuquinha, atravessou o Atlântico e é artista visual entre o Reino Unido e o Brasil. Juliana Freitas e Lia Letícia ambas integrantes da casa MauMau.

O Ateliê Submarino
No Recife, em 2000, foi organizado o atelier Submarino, uma proposta do artista Maurício Castro, juntamente com as artistas Isabela Stampanoni, Juliana Notari, os artistas Jacaré e Fernando Augusto. O espaço era um grande galpão localizado no bairro de Santo Amaro, Recife. Lá, os fazeres e modos de fazer se entrecortavam e entrelaçavam pela amizade e pelas maneiras de aprendizados (técnicas e poéticas) que dos mais velhos migravam para os mais jovens, e o contrário. Embora os espaços de trabalho fossem separados e individuais, eram abertos e transparentes, vazados, porosos que permitiam os transbordamentos e as aprendizagens mútuas. Hibridismos e colagens, bricolagens e fortalecimento de identidades artísticas, cito para ilustrar as trajetórias de Juliana Notari, Juliana Calheiros, Isabela Stampanoni, todas formadas em artes plásticas pela UFPE. Depois Fernando Peres saiu, e entrou Renata Faccenda, Daniela Brilhante e em seguida Nadia Pitta, Juliana Freitas (que ocupavam o aquário) e Juliana Calheiros. Depois ainda, o molusco Lourival Cuquinha. Houve a participação do professor da UFPE e artista Mário Settea, por volta de 2003. O espaço autogestionado existiu de 2000 a 2004. Ações coletivas foram propostas que envolveram inúmeros artistas em exposições coletivas e eventos multidisciplinares, como a Mostra Casa Coisa, um deboche irônico com o evento Casa Cor; o Show da Monga, espetáculo multiartístico fazendo uma paródia com o show popular onde uma mulher se transforma em gorila, e outras exposições dos integrantes do coletivo, bazares e muitas festinhas que reuniam pessoas de diversos universos de trabalho.

Branco do Olho – B.O
O coletivo Branco do Olho criado em 2004, por estudantes de artes plásticas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), se firmou como um espaço de investigação e convivência entre pessoas, não só entre os membros do grupo, mas também com a comunidade e outros artistas para além daquele grupo de estudantes universitários.

Além das várias exposições, o Branco do Olho intensificou a agenda cultural pernambucana com noites performáticas, mostras de vídeo, festas etambém passou a abrir sua sede, no centro de Recife, para o Projeto de Residência, no qual artistas de outras localidades interagiram com a cidade e criadores locais. Dessa forma, o convidado deixa suas marcas nas pessoas, nas ruas e também recebe impressões e interferências no seu trabalho, tudo coletivamente. “Ainda que algumas de nossas exposições possam levar o nome de apenas um dos artistas, nós discutimos muito, concebemos as ideias em conjunto e os trabalhos ocorrem dentro dessa órbita”, explica João Monteiro Feliciano, um dos integrantes (15).

O condomínio Branco do Olho se configurou, então, como um programa de residência artística onde artistas são convidados a participar, trocar e interagir com artistas do coletivo Branco do Olho no período de dez dias e, no final,são convidados a preparar uma exposição aberta ao público.Também atuava no âmbito do coletivo, o grupo de mulheres artistas intitulado por DIVAS – Atelier Coletivo Branco do Olho. Integram as DIVAS as artistas: Bárbara Collier, Beth da Matta, Clarissa Diniz, Juliana Notári e Zel Garrett. Solicitada a escrever um breve relato sobre o B.O para compor esse artigo, a artista e docente Luciana Padilha, enviou por mensagem eletrônica esse relato que passo a transcrever quase que em sua totalidade,

O Branco do Olho – B.O. – foi um coletivo de artistas que, desde 2004, veio buscando realizar atividades de fomento e difusão das artes visuais – como exposições, mostras de vídeo, performances etc. Atuou principalmente em Recife-Olinda. O coletivo contribuiu para o adensamento do campo da arte ao articular artistas em suas poéticas, bem como para a legitimação de suas produções. Assim, ao funcionar como um catalisador da produção artística, o Branco do Olho cumpriu importante papel na promoção da arte contemporânea em Pernambuco. Dentre as atividades desenvolvidas pelo coletivo, estão o Programa de Exposições-Relâmpago 2006/2007 – série de 13 exposições individuais, uma mostra coletiva e publicação de catálogo com o registro da obra dos artistas do B.O. –, a realização das Quartas Etílicas – encontros semanais que reuniam várias gerações de artistas recifenses, e onde surgiram parcerias diversas entre os frequentadores –, o projeto B.O. Itinerante – intervenção ocorrida no 17º Festival de Inverno de Garanhuns através do qual o coletivo divulgou suas ações, realizando um importante trabalho de arte-educação com o público –, dentre tantas outras exposições coletivas que, para além dos membros do grupo, mobilizaram inúmeros artistas da cidade, criando um ambiente agregador que intensamente tem contribuído para a troca de experiências e ideias entre artistas (não só de Recife-Olinda), críticos, jornalistas, arte-educadores e quaisquer outros interessados em arte contemporânea. O Branco do Olho contou teve várias composições dentre essas cito: Bárbara Collier, Bruno Monteiro, Clarissa Diniz, Eduardo Romero, João Manoel Feliciano, Izidorio Cavalcanti, Lúcia Padilha, Luciana Padilha, Sílvia Paes Barreto e Zel Garret. Em 2008 e 2009, o Branco do Olho optou por abrir seu coração — e apartamento — para pessoas outras, distantes, mas que (e talvez exatamente por isso) despertavam atrações diversas sobre os artistas do coletivo. Surgiu, então, o projeto Condomínio Branco do Olho. Ansiando estabelecer relações mais prolongadas, necessariamente presenciais, o BO realizou, com apoio do Sistema de Incentivo à Cultura da Prefeitura da Cidade do Recife, uma série inicial de cinco residências que têm se desdobrado infinitamente. Chamamos, para partilhar conosco suas ideias, dúvidas, criações, delírios e frustrações, Thula Kawasaki (SP), Luiz Rodolfo Annes (PR), Lucas Bambozzi (MG/SP), Vitor César (CE/SP) e Fabiano Marques (SP), que no Recife estiveram por períodos variados — de uma semana a um mês. Dispondo-se, portanto, a preencher importante lacuna em nosso campo da arte – a ausência, na cidade, de um espaço não-institucional voltado a acolher artistas brasileiros e estrangeiros, o Branco do Olho assim reafirmava seu interesse em instigar artistas e trabalhar em prol da consolidação de um campo para a arte contemporânea em Pernambuco.O Branco do Olho passou por três formações e nos últimos anos integrava o coletivo: Adah Lisboa, Braz Marinho, Bruno Monteiro, Charles Douglas, Daniel Santiago, Eduardo Romero, Izidorio Cavalcanti, Luciana Padilha, Marcela Camelo e Rodrigo Cabral. Na verdade foram quatro formações. A primeira tenho que buscar…looonge…a segunda e a mesma que está citada no texto acima sobre a residência, mais Maurício Castro, Bruna Rafaella, Sérgio Vasconcelos e Tato Moes.Nossa última ação foi a residência na bienal de Cerveira em Portugal e uma oficina de serigrafia como parte do projeto aprovado em economia criativa do Minc. Acho que ‘hibernamos’ rsrs primeiro pelo tempo juntos mesmo… segundo tivemos que entregar o ateliê por causa da expansão imobiliária, da rua do Lima, ficando caro para mantermos o espaço… não combinamos de acabar, mas ficamos com a sensação de que precisávamos dar um tempo… e com o tempo assumimos que era a hora de parar… (Padilha, Luciana, relato cedido à autora, 2016).

A segunda metade da Década do novo milênio: Breve mapeamento
Nesse espaço trarei um breve mapeamento de alguns espaços autogestionados e independentes que integram artistas, pesquisadores, produtores, enfim, agentes e mediadores das artes e da cultura nos anos mais recentes. Tive aqui a colaboração da pesquisadora Laura Sousa e de Raíza Cavalcanti que, gentilmente, colaborativamente, com afeto total e respeito a esse trabalho cederam depoimentos pessoais e textos reflexos para esse mapeamento. Devo advertir o leitor que esse mapeamento é uma primeira tentativa de nomear e cartografar espaços e iniciativas de artistas na cidade de Recife e Olinda, especificamente com a participação do espaço Casa do Cachorro Preto. Então, muitos espaços e ações coletivas ainda poderão se agregar a essa breve e rápida apresentação.

P.I.A – Pesquisa e Interações Artísticas
Uma sigla: P.I.A – Pesquisa e Interações Artísticas. Com três palavras, procuramos traduzir nosso objetivo de conhecer processos artísticos antes de problematizá-los com a alcunha de “objetos de pesquisa”. Junto às pesquisadoras Cristiana Cavalcanti, Raquel Borges e Raíza Cavalcanti (16), pude iniciar um caminho mais consciente de vivência das práticas artísticas no Recife a partir de 2010. Nossos diálogos e planos nos conduziram a trabalhar e produzir diretamente no campo social artístico que discutíamos com bases teóricas no ambiente acadêmico, especificamente, nas pós-graduações de História e Sociologia da UFPE. (Laura Sousa, relato cedido à autora, 2016).

O grupo nasceu do encontro dessas três jovens estudantes no âmbito do curso de História da Arte Brasileira, promovido pela Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ) em 2009, ministrado pelo sociólogo Paulo Marcondes Soares.  Dos encontros e debates ocorridos no curso, os interesses e os laços de amizade foram se constituindo em uma teia que produziu o P.I.A. Segundo depoimento de Laura Sousa, havia naquele momento certas políticas públicas e esforços pessoais dentro de instituições públicas, que possibilitavam desdobramentos frutíferos iniciados, por exemplo, por formações como a já referida:

Há sete anos atrás, encontrávamos esforços institucionais para a formação de profissionais e de público por meio de cursos, palestras (ambos gratuitos) e aberturas para parcerias de trabalho. Dessa forma, nosso grupo teve, desde o início, o apoio do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM) (17) na forma do acesso à biblioteca, ao acervo e a alguns projetos de pesquisa e de curadoria.(Laura Sousa, relato cedido à autora, 2016).

O que manteve o grupo de pesquisa ativo foi certamente o apoio institucional franqueando o espaço do Mamam para que o grupo pudesse encontrar um interesse comum e iniciar as investigações. Daniel Santiago, artista conceitual, naquele momento nada reconhecido, porque ficou à sombra da trajetória em ascensão do artista Paulo Bruscky (18), foi o assunto que uniu o grupo em torno de um interesse investigativo.

O que passamos a entender como ofício em grupo foi sistematizado diante do desejo de conhecer as ideias e os processos do artista/poeta/ator Daniel Santiago (1946). Marcamos visitas à sua casa/ateliê, registramos diálogos e imagens, fizemos muitas anotações, rimos com suas brincadeiras e provocações, nos encantamos com suas narrativas. Nos encontros particulares do grupo, a poética de Daniel Santiago se assentava junto aos estudos sobre a afetação de espaços coletivos, sobre performatividades da palavra, sobre corpos, participações e cenários distintos. O que posso dizer é que estávamos sempre em diálogo interno e abrindo nossas redes de contato.(Laura Sousa, relato cedido à autora, 2016).

Com a colaboração com o Mamam, o PIA escreveu o texto crítico da montagem da mostra intitulada (De)Sertão do artista João Modé, em passagem pelo Recife em 2010. No mesmo ano, o grupo recebeu o convite da galeria Sala Recife, dirigida pelo artista Gil Vicente, para a produção do texto crítico da exposição Pinturas de Álvaro Caldas. Poucos meses depois, o grupo trabalhou na curadoria da montagem Eflúvios artificiais de mulheres abstratas, de Daniel Santiago. Também o grupo propôs e desenvolveu um minicurso teórico inserido no Colóquio de História da Arte da UFRPE realizado em 2011 (19).

Nesse ano, a Semana de Artes Visuais do RecifeSPA das Artes – completava dez anos, e frente a tantas dificuldades em realizar o evento, o grupo PIA recebe o convite das coordenadoras Beth da Matta e Bruna Pedrosa para trabalhar na concepção, editoração e redação textual da ReviSPA em colaboração com a jornalista e curadora Olívia Mindêlo. Com investimento reduzido, o SPA das Artes continuou a ter em sua publicação anual, também, um espaço de pensamento sobre artes e cidade, mantendo sua linha de proposições. Dois anos depois, o evento já estaria fora do calendário anual da cidade.

Simultaneamente, o grupo PIA dava continuidade às pesquisas acerca da obra e trajetória do artista Daniel Santiago. O resultado desse empenho foi a realização do levantamento documental que deu suporte às curadoras Cristiana Tejo e Zanna Gilbert na produção da exposição Daniel Santiago – Do que é que eu tenho medo?, primeira individual do artista em mais de cinquenta anos de carreira, realizada no MAMAM com incentivo do Funcultura. Dentro desta parceria, o grupo PIA contribuiu, também, com um projeto idealizado dois anos antes: um seminário sobre arte contemporânea no Recife dos anos 1970. Planejamento recebido pelas curadoras e que se concretizou dentro do próprio espaço expositivo durante a mostra de Daniel Santiago.

Em meio ao reconhecimento da trajetória desse artista, o PIA também produz de maneira menos sistemática o levantamento documental e produção de depoimentos orais de memória com artistas que se ligavam à trajetória de Santiago, a saber: Silvio Hansen, Jomard Muniz de Brito, Cyane Pacheco, Ypiranga Filho e outros. Segundo Laura Sousa, o grupo também “Contribuiu, em dado momento, com interlocuções entre olhares do passado e do presente sobre o fazer artístico que torna a cidade o espaço poético fundamental”. (Sousa, Laura, relato à autora, 2016).

Por fim, já entramos no ano de 2013. Segundo Laura, nesse momento o grupo se dispersa em meio às buscas individuais solicitadas pelos desejos de formação e errâncias da vida que as colocaram em espaços e tempos dispersos para a continuidade do grupo. O PIA deixa de ter uma vida orgânica saindo de cena como coletivo de pesquisa e investigação crítica das artes.

Em resumo, Cris Cavalcanti seguiu para o trabalho com movimentos sociais no interior do estado, Raquel Borges concluiu o mestrado em História e seguiu para o doutorado na mesma área, Raíza Cavalcanti e eu seguimos a formação na pós-graduação em sociologia na UFPE. Particularmente, segui para outras articulações grupais. Os temas que aqueceram o PIA continuam vivos no campo artístico e os limites de atuação neste último se encontram mais difíceis de serem ultrapassados. Hoje, a vontade de produção segue com as incertezas que afligem a arte e a educação como um todo no país. Apenas segue.(Laura Sousa, relato cedido à autora, 2016).

Tive o enorme prazer de contar com relatos muito intensos, afetivos e analíticos sobre a organização e desenvolvimentos do grupo P.I.A, com seus projetos, seus caminhos e opções teóricas e escolhas de artistas. Também o momento oportuno do seu acontecimento, e os demais contextos do campo da arte e da cultura que contribuíram para sua fértil presença. Assim, por agradecimento citarei na integra o relato da pesquisadora e socióloga Raíza Ribeiro Cavalcanti. Seu relato revela a participação do professor, Paulo Marcondes, docente do Departamento de Sociologia da UFPE que criou um campo de estudo no respectivo Departamento, cito, a sociologia da arte, uma ousadia extremamente louvável que abriu a sociologia para estudos sobre as artes visuais no século XX. Também, faz referência para a articulação do Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães, que integra essa rede de trocas, pelas mãos generosas de sua diretora Beth da Matta e por fim, da presença da Fundação Joaquim Nabuco que organizou em 2009 cursos avançados em arte e cultura, no qual participai como docente no curso avançado sobre Mediação e Arte Contemporânea. Na época, a curadora independente Cristiana Tejo está na respectiva instituição como coordenadora e curadora de artes plásticas do Instituto de Cultura da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) e levou a cabo esse projeto. Por isso que o relato será integrado em quase toda sua totalidade a esse texto.

“Em resumo, Cris Cavalcanti seguiu para o trabalho com movimentos sociais no interior do estado, Raquel Borges concluiu o mestrado em História e seguiu para o doutorado na mesma área, Raíza Cavalcanti e eu seguimos a formação na pós-graduação em sociologia na UFPE. Particularmente, segui para outras articulações grupais. Os temas que aqueceram o PIA continuam vivos no campo artístico e os limites de atuação neste último se encontram mais difíceis de serem ultrapassados. Hoje, a vontade de produção segue com as incertezas que afligem a arte e a educação como um todo no país. Apenas segue.  (Laura Sousa, relato cedido à autora, 2016). Minha chegada ao Grupo PIA começa um pouco antes. Mais ou menos um ano antes. Eu estava no primeiro ano do mestrado no Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (PPGS-UFPE). Meu orientador na época, o professor Paulo Marcondes, tinha sido convidado para ministrar um curso em história da arte na Fundação Joaquim Nabuco naquele ano. Era o ano de 2009. Todos os orientandos de Paulo ficamos ouriçados com o curso. Ele falou do programa, os textos que seriam discutidos, e a cada novidade só crescia a vontade de fazer aquele curso com ele. Porém, havia um problema: não podíamos participar todos do curso. (…) No contexto desse curso, conheci várias pessoas da área das artes visuais do Recife e me aproximei de outras que já conhecia anteriormente. Entre os colegas do curso estavam Beth da Matta, Laura Sousa, Raquel Borges, Cristiana Cavalcanti e Ana Luisa Lima. Serão essas pessoas que começarão um movimento de formar um grupo de estudos e pesquisa no seio do MAMAM o qual, posteriormente, dará origem ao Grupo PIA. O curso ministrado por Paulo foi tão potente e profundo que gerou nas pessoas que participaram dele a necessidade de seguir discutindo e estudando os temas propostos durante os seis meses de discussão. Partiu de Beth da Matta um convite para que ocupássemos a biblioteca do MAMAM para fazer reuniões de discussão e propor atividades de pesquisa no interior do museu. Fomos muitos os convidados no início. Mas ao final, cinco de nós fomos as que respondemos mais ativamente o convite e nos reunimos em torno da proposta de Beth para ativar um grupo de pesquisa no MAMAM. Começamos então eu, Laura, Cris, Raquel e Ana Luísa a nos reunir com mais freqüência e discutir as possibilidades de realizar atividades de leitura, pesquisa e escrita. Dessas reuniões, surgiu a ideia e a necessidade de nos pensar não apenas como um grupo de pessoas que se reunia no MAMAM para pensar pesquisa no interior desta instituição, mas como um coletivo de pesquisadoras que passaria a trabalhar juntas e a propor projetos reais de pesquisa a várias instituições, incluindo o MAMAM. A partir daí nasceu o Grupo PIA – Pesquisa e Interações Artísticas. Isso aconteceu em 2010. (…) No meio desse processo de constituição, Ana Luísa Lima precisou deixar o grupo. Passamos a ser o Grupo PIA apenas eu, Laura, Raquel e Cris. A partir daí o diálogo com o MAMAM, que já era intenso, se estreitou e participamos de muitas atividades no museu. E um dos nossos projetos, proposto em parceria com Beth da Matta, girou em torno da pesquisa sobre a trajetória de Daniel Santiago. Esse se tornou um projeto central para o grupo, pois mobilizou várias de nossas atividades e propostas. Desse projeto resultou o convite para a curadoria  da mostra de Daniel Santiago no MAMAM, chamada Eflúvios Artificiais de Mulheres Abstratas, em 2011. E resultou também a presença do PIA como grupo de pesquisa na exposição realizada por Cristiana Tejo e Zanna Gilbert sobre Daniel intitulada Do que é que eu tenho medo?.Além dessas atividades com Daniel Santiago, o PIA também tinha um projeto de realização de cursos que resultavam dos nossos estudos pessoais e coletivos. Insistimos bastante que era necessário seguir com o projeto de realizar leituras e discussões como parte central de nossas atividades. Esses estudos geraram algumas propostas de mini-cursos que o PIA realizou, mas também foram a causa de tensões internas que, com o tempo, foram desgastando o grupo. O descompasso entre realizar atividades concretas como a edição, em conjunto com Olívia Mindêlo, da Revispa de 2011 e realizar atividades de estudo e leitura começou a se tornar bastante evidente entre alguns membros do grupo.  Com o tempo se percebeu que era difícil reunir o grupo com a regularidade que se necessitava. Porém, a presença do grupo em atividades como a editoração da Revispa e o suporte de pesquisa para a exposição de Daniel exigiam um nível de comprometimento de todas mais intenso e o fato de que nem todas podiam compartilhar esse compromisso foi gerando uma espécie de sobrecarga em alguns membros. De tal maneira que ao final de 2012, se percebeu que era difícil manter essa formação e a proposta de trabalho que havíamos pensado para ela. Foi o fim do Grupo PIA, coletivo de pesquisa que durou apenas dois anos, mas que constituiu para mim um importante exercício de criação de uma dinâmica de pesquisa na área de artes visuais que oscilasse entre o nível acadêmico e o campo da arte de forma mais direta”. (Cavalcanti, Raíza, relato cedido à autora, 2016).

BCúbico
O retorno do artista visual Edson Barrus (20) para a cidade do Recife possibilitou a emergência do espaço cultural das artes visuais denominado como BCúbico. Essa iniciativa foi desenvolvida por ele, César Barros, Yann Beauvais. O , segundo seus organizadores e registrado em texto disponibilizado no site (e face) se desenhou como uma agência de conexão que torna acessíveis ao Nordeste do Brasil obras, caminhos, processos e agenciamentos contemporâneos que vão do cinematográfico ao virtual. O fluxo das imagens nos permite mostrar propostas raramente vistas na região. Ou seja, havia nessa proposição o desejo de ser espaço de formação e de conexão entre artistas e obras (bastante específicas) produzidas fora da região nordeste. Um agenciador de proposições artísticas cujos repertórios e linguagens estivessem ligados à fluxos de experimentações com imagens e a linguagens que se caracterizam pelo uso de sistemas eletrônicos, informação e digitais. Um espaço que exibia mostras expositivas, realizava cursos e encontros, um lugar de aprendizagem e consulta de documentários, filmes e obras numéricas, promovendo leituras, cursos, oficinas e debates para diferentes públicos. Abrigou-se esse dispositivo no bairro do Recife (conhecido como Recife antigo) em um dos casarões do início do século XX no ano de 2011. Havia no escopo conceitual do programa/projeto o desejo apoiar projetos de criação de obras de arte interativas ou transmidiáticas, web-art, Net- arte, Ciberarte, Bioarte, Gamearte, Arte Viral, TV web, Mídias Móveis e Intervenções Urbanas com mídias digitais, performances de cinema ao vivo, Dança & Tecnologia, Realidade Virtual, Arte Gambiarra, Tecnologias Imersivas, Música eletroacústica, Ações de Midiativismo, Performances Híbridas com meios digitais e outras linguagens artísticas. (conf. http://bcubico.blogspot.com.br/2011/04/abertura-do-b.html e http://bcubico.com/)

O espaço atravessou uma fase bastante crítica no âmbito das políticas para cultura aqui em Pernambuco. As gestões culturais tanto do governo do estado de PE quanto da Prefeitura da cidade do Recife, foram paulatinamente abandonando o interesse em cultura e fomento para as artes visuais. Assim, aos poucos, o BCubico foi perdendo seu vigor por falta de incentivos fiscais para sua manutenção e produção de mostras, cursos e fomentos à produção dos artistas. Recortei esse pequeno fragmento de um texto maior, disponibilizado pelo Fórum Permanente (21), para poder disponibilizar em narrativa extremante rica e bem escrita a verve da sua escrita, os conceitos que operam sua maneira de criar e, por fim, escrito em 2014, próximo do esmaecimento do BCúbico na cidade, o texto nos ajuda a pensar na dimensão da morte dos espaços de artistas.

“A maioria desses espaços morre antes dos 10 anos. cheiros, temperaturas, hormônios  delimitando o território… Lugares de agregação, de convívio, de reflexão e de trocas e cruzamentos de toda ordem, os espaços geridos por artistas quando surgem já compreendem a sua morte. Essa finitude é uma força que faz com que esses espaços só existam na disparidade dos seus modos de produção, estabelecendo redes e conexões que mobilizam um grande número de artistas, críticos e produtores culturais, mas que dependem de forças mutantes e normalmente precárias.  A dimensão dos intercâmbios entre artistas e processos que os Projetos Especulativos de Gestão promovem e o fomento à cultura, correspondem ou superam em escala desempenhos de universidades e programas governamentais de intercâmbio, evidenciando  a importância desses espaços dentro da cadeia produtiva da cultura, merecendo da sociedade e do setor público reconhecimento pelo trabalho que desenvolvemos. Estamos sim dinamizando a sociedade, interferindo diretamente nessas trocas, promovendo contaminações críticas  e novas hibridações criativas, porque não dizer, estamos gerando um mercado.” (Barrus, Edson, projetos especulativos de gestão, 2014)

Casa do Cachorro Preto
Localizada na Rua Treze de Maio, em Olinda, a Casa do Cachorro Preto (22) é definida como um quintal/ateliê/galeria/espaço cultural dirigido pelos artistas Raoni Assis e Sheila. Tem por objetivo integrar expressões artísticas e ser um ponto de encontro em meio às referências entre o patrimônio e a arte contemporânea. Sua organização torna fundamentais as parcerias artísticas e de produção que ocorrem de forma espontânea e garantem a intensa movimentação da agenda da casa. Em seu contexto específico, a Casa do Cachorro Preto articula soluções diante da desestruturação das políticas públicas para as artes e, por isso mesmo, da instável formação do público e do mercado de arte local.

Esses são os desafios, aliás, enfrentados por todos que estiveram presentes no evento. Ainda em suas falas, Sheila e Raoni enfatizaram a dificuldade em atrair um público que, normalmente, está excluído dos espaços tradicionais da arte. Nesse sentido, a arte está relacionada a posicionamentos políticos que dão identidade às suas propostas e que integram suas ações à realidade cultural. Seus organizadores compreendem a inserção no mercado da arte como um processo de economia colaborativa que se preocupa, sobretudo, com questões ambientais e sociais. Destacam a consciência sobre o uso de recursos do ambiente, a integração de classes sociais e a defesa de debates e discursos não partidários de combate ao machismo, ao racismo, à homofobia e demais formas de extremismos opressores. Nesse caminho, desde 2012, o projeto divulga artistas que não são recepcionados em espaços tradicionais por meio de curadorias informais que legitimam desejos e necessidades de atuação.

Produtora Colaborativa PE
Sua atuação está voltada para pesquisas sobre tecnologia que facilitam projetos pautados na autonomia social e na sustentabilidade. A produtora (23), em seus cursos e encontros, valoriza a democratização do acesso à produção e ao uso de tecnologias digitais. Os trabalhos muitas vezes agregam tecnologia livre e sem patente associada ao empreendedorismo e ao cooperativismo, fatores que tem por base a criatividade de seus agentes. Em uma rápida explanação, Pedro Jatobá mencionou os espaços públicos ocupados – como, por exemplo, a Concha Acústica da UFPE para reuniões, cursos e shows para arrecadação de contribuições – e a mobilização de sujeitos que atuam no comércio popular ede rua.

Casa da Rua
Trilhando percurso muito parecido com os da MauMau e da Casa do Cachorro Preto, a Casa da Rua está entre os centros independentes de fomento artístico mais atuantes no bairro de Casa Forte. Reformada em 2015, a Casa abarca as mesmas preocupações sobre a formação crítica do público e produção colaborativa de práticas expositivas. Sobre tais planejamentos, o artista Eduardo Souza chamou atenção para a constituição de redes de trabalho e de escoamento de pensamento crítico sobre arte na cidade e em outros eixos culturais do país. Por meio de uma confluência de pesquisadores e artistas interessados na prática expositiva, a Casa da Rua articula cursos sobre técnicas artísticas, concepções curatoriais, planejamento expográfico e montagem.

No geral, os integrantes dos três espaços independentes defenderam a liberdade de organização das ações artísticas, o diálogo direto entre colaboradores, a articulação de propósitos políticos, a valorização das inter-relações entre os centros artísticos que, atualmente, apresentam pautas mais regulares e instigantes do que os espaços institucionalizados da cidade.

Grupo Risco
A artista e docente Bruna Rafaella Ferrer. O grupo de desenho com modelo vivo, intitulado Risco!, iniciou seus encontros no Edf. Pernambuco, localizado na Av. Dantas Barreto, já configura a experimentação dos movimentos e ruídos daquela área. Com arquitetura de diferentes momentos históricos, muitos de seus detalhes são apreciados por aqueles que caminham por suas ruelas, registrando um labirinto de imagens, códigos comunicativos, desigualdades, azulejos, calçadas, conflitos (entre árvores e concreto, entre histórico e contemporâneo, entre beleza e poluição), etc. Esses e outros fragmentos compõem o Guia Comum do Centro do Recife, publicação organizada por Bruna Rafaella e amigos em 2015. Solicitei à pesquisadora Bruna Rafaella que escreve um texto sobre como ela entendia o espaço, como havia surgido, etc, segue abaixo seu depoimento,

“O Risco! é um grupo pernambucano formado, em 2013, por diversos agentes culturais (principalmente desenhistas e artistas do corpo) cujo objetivo é estimular o fazer/pensar o desenho e suas possibilidades enquanto dispositivo de criação na contemporaneidade. O grupo propõe a investigação, o exercício e a sistematização de processos criativos relacionados à expressão gráfica e à performance, ao mesmo tempo em que estabelece uma prática conjunta e cotidiana ligada pelo exercício semanal de desenho de modelo vivo, que agrega diferentes sujeitos criativos (artistas visuais, ilustradores, designers, atores, bailarinos, modelos, performers, músicos, pensadores do desenho). Tem sido objetivo do grupo fomentar a discussão e o desenvolvimento de projetos no contato com a ambiência de criação e difusão do desenho e da performance; uma forma de entender que a arte produzida na atualidade por vezes não se debruça unicamente sobre objetos (acabados) da arte. Nesse sentido, o grupo vem trabalhando com a diversidade: de corpos dos modelos, de identidades de gênero, interpretações gráficas nos desenhos, e de processos do fazer artístico. No Risco!, não se persegue modelos pré-concebidos nos modus operandi de escolas formais de artes. Não há indiferença à história (gestual e conceitual) trazida pelo modelo, que assim passa de sujeito passivo a ativo. Por vezes propõe o uso de elementos de pesquisa própria que tornam-se condutores de outros modos de expressão do desenho. O interesse particular do grupo Risco! está na criação de um lugar de diálogo através da política do desenho e da performance como um estado instigante de conhecimento, imaginação, sensorialidade e pensamento crítico-reflexivo.” (Raffaela, Bruna, relato cedido à autora, 2016).

Coletivo Expográfico/Ocupação Relíquias
As investigações sobre o “construir juntos” da arte encontram, também, na prática expositiva em si um terreno fértil para problematizações sociais e estéticas. Uma exposição, no contexto profissional, é sempre resultado das trocas entre agentes de diferentes áreas. Com essa compreensão, o Coletivo Expográfica experimenta a situação expositiva como obra vivencial e não como mero cenário para a exibição do sentido mais tradicional da obra de arte. Formado pelos artistas e pesquisadores Eduardo Souza, Laís Castro, Laura de Sousa e Renata Pimentel, o coletivo nasceu de um grupo de estudos que reunia estudantes e artistas na Casa da Rua. Tecendo explicações sobre o projeto Ocupação Relíquias (2015), os integrantes contaram como pesquisas históricas e artísticas foram as bases para a criação de um labirinto/instalação que, em termos de cenografia e conceito, ativa sensações de incerteza (tal como quando relacionamos memórias individuais com memórias coletivas) e de compreensão irônica sobre o fetiche dos objetos em museus e sobre as narrativas históricas hegemônicas. Os trabalhos do coletivo se desdobram em oficinas de aprofundamento crítico e de criação, contando com parcerias institucionais para viajar com projetos e cursos dentro e fora de Pernambuco.

Edifício Pernambuco
Articulado com questões ligadas a novas e outras maneiras de habitar a urbe e também acenando com dimensões da critica as ocupações da cidade pelo capital privado das grandes construtoras que tem atuando de maneira devoradora com os espaços públicos, a ocupação realizada pelos novos condôminos do Edifício Pernambuco (24), um prédio situado na região central da cidade, passaram a projetar na paisagem cultural da cidade outros valores e lógicas éticas e estéticas. O prédio, localizado na esquina da Avenida Dantas Barreto com a Rua da Roda, no bairro de Santo Antônio, em pleno centro comercial de Recife, vem sendo reocupado desde 2012 e hoje abriga em seus doze andares, produtores, arquitetos, designers, estilistas, fotógrafos, cineastas, artistas plásticos e jornalistas integrados em negócios de base criativa, coletivos, atividades e eventos artísticos.

O Projeto ExcentriCidades nasceu na onda de projetos de artes integradas no último ano em Recife, realizados por coletivos nos chamados espaços criativos. O projeto é organizado pelo Coletivo Sexto Andar (A Firma, Anilina Produções e Soluções Criativas, Bruna Rafaella, Corujas, Clarissa Saraiva, Carlota Produções, Casa Navio, Eric Gomes, Jacaré Vídeo, João Nascimento, Paula K e Renata Pires Fotografia), localizado no Edifício Pernambuco.

O edifício Pernambuco já contou com todos os andares ocupados. O primeiro andar do prédio foi ocupado pelo Instituto de Costura, onde são oferecidos cursos de moda e costura; no 2º. andar encontra-se uma escola de formação técnica para soldadores, eletricistas, etc. (Pontes Cursos). No 3º andar funciona o Coletivo Terceiro Andar ligado à produção de livros; no 4º havia o Espaço Fonte, um centro de investigação em arte e convivialidade; no 5º andar, a REC Produtores, uma produtora reconhecida no mercado de cinema e televisão em Pernambuco; no 6º andar, o Coletivo Sexto Andar conta com a assessoria de comunicação e produtora Corujas, Anilina Produções e Soluções Criativas. No 7º andar, habitam o Ateliê Ideias, o Coletivo Três Por Meia Dúzia, o estúdio de tatuagem Leão Bravo, Batebit Artesania Digital com produção de instrumentos musicais, coletivo Mistura Ativa de produção cultural, brechó e o laboratório cultural CaramiolasLab, que oferece o ambiente para eventos, cursos, oficinas e workshops; no 8º andar, ORBE Coworking, ambiente com recursos de escritório para quem precisa de um lugar para trabalhar, realizar reuniões, encontros informais e pequenos eventos; 9º andar, Coletivo Nono Andar, cujos integrantes atum nas áreas de design, produção cultural e fotografia; no 10º andar está o Ateliê Paulo Meira; no 11º andar, Cerveja Risoflora, fabricada artesanalmente adicionando a flor que nasce nos mangues; por fim, no 12º andar é moradia e ateliê do artista plástico Eduardo Araújo.

Atualmente o Edifício Pernambuco os espaços do Edifício Pernambuco têm se tronado espaços vazios. Artistas, produtores, agenciadores entre tantos que estavam ocupando o prédio têm saído por conta da crise política e econômica que o Brasil tem atravessado nesse ano.

O projeto 3emeio
3emeio Cultura em Movimento centro cultural que surgiu em 2012, na cidade do Recife, com o intuito de promover educação artística e cultural de forma experimental, possibilitando a reflexão e debates, ampliando as discussões com diversas áreas da cultura, entre estética, filosofia e psicanálise e temas contemporâneos.

A proponente dessa experiência formativa foi Liana Ferreira com especialização em psicanálise e arte, no Traço Freudiano Veredas Lacanianas, associada à École Freudienne de Paris, desde 2011. Como pesquisadora independente desenvolve um projeto experimental denominado 3emeio, um espaço de pesquisa, reflexão, troca e criação de arte e cultura Os projetos, laboratórios e cursos livres são desenvolvidos em parceria com curadores, filósofos, psicanalistas, artistas,cineastas,assim como demais profissionais da cultura do cenário nacional e internacional, buscando abrigar demandas contemporâneas culturais latentes, dando suporte a discussões artísticas, culturais e sociais. Com a finalidade de potencializar as possibilidades de expressão, e dando visibilidade à criação artística e intelectual produzida pelos encontros, a fim dar suporte à pesquisa e ao desenvolvimento artístico e promover o debate entre público geral, artistas e agentes culturais. Solicita a pensar sobre essa experiência, Liana Ferreira considera que,

Acredito que essas iniciativas são de fundamental importância, pois temos um déficit muito grande na educação o formal e artística no Brasil e em Recife, portanto esses espaços de discussão e formação livres auxiliam no desenvolvimento humano e subjetivo, para além das escolas e do mundo acadêmico. (Ferreira, Liana, relato cedido à autora, 2016.)

Para finalizar essa parte não poderia esquecer de mencionar dois periódicos fundamentais para a ampliação e dilatação em outros meios dos fazeres e ações que vinham acontecendo nesse período. A publicação da Revista Tatuí de Crítica de Arte (25), fruto da organização de um coletivo de estudantes do curso de Artes Visuais da UFPE e ex-alunos das artes e da sociologia envolvidos com a dinâmica das artes visuais, seja como artista, iniciantes à crítica de arte e curadoria, cito, Ana Luísa Lima, Bruno Vilela, Clarissa Diniz, Renata Nóbrega e Silvia Paz Barreto. Surgiu, no Recife, em 2006, a partir do encontro de críticos de arte em formação. Segundo breve depoimento de Ana Luisa Lima, a Tatui, teve a seguinte composição:

Olha, a Tatuí começou com Ana Luisa Lima, Bruno Vilela, Clarissa Diniz, Silvia Paes Barreto e Renata Nóbrega. Essa formação até o segundo número. A partir do terceiro ficou eu e Clarissa como editoras, Bruno Vilela ainda era o designer e Lilian Soares a produtora. A partir da Tatuí cinco a formação fica Ana Luisa Lima, Clarissa Diniz como editoras, Daniela Brilhante como designer e Bebel Kastrup na produção e Virgínia Correia posteriormente entra e essa é a formação até o fim do projeto com a Tatuí 14.” (Lima, Ana Luisa, relato cedido à autora, 2017)

Seu primeiro número, em forma de fanzine, foi concebido durante o SPA das Artes, sob a ideia de uma crítica de imersão, experimento de crítica de arte que pretendia não se vincular à concepção de distanciamento crítico.Nos números seguintes da Tatuí, modificaram-se as intenções editoriais. Com outra configuração de equipe, a revista – mantendo seu caráter de independência, experimentalismo e pluralidade –  propunha debates aos quais se agregam colaborações diversas cujos conteúdos alicerçam um observatório acerca da arte hoje produzida, em especial, no Brasil.

A outra revista estava ligada ao escopo conceitual do SPA das Artes. Um periódico que tinha como objetivo materializar as dinâmicas, as ações, os cursos e oficinas ocorridos durante o SPA das Artes e trazia textos mais reflexivos, o registro fotográfico, entre outras novidades. Foi inicialmente editado e coordenado pela jornalista Adriana Mattos Dória com a colaboração de artistas e críticos, além de trazer os registros fotográficos que em boa medida era registrado pelo inquieto Fernando Peres. Nas últimas edições da REvispa, assim intitulada, a jornalista e curadora Olinda Mindêlo tornou-se a editora.

III
Maumau– Espaço Coletivo das Artes Visuais na Cidade do Recife: Resistência e Ativismo
Somos um espaço de resistência. Uma linda casa localizada em Recife. Cercada de árvores, ela é dividida entre ateliês, residência e espaços livres voltados para ações artísticas. A casa é localizada num bairro central da cidade, sendo uma das poucas que permanecem com suas características iniciais – construída no ano de 1938. Funciona de forma cooperativa e independente, com foco em artes visuais, porém abrigando também outras linguagens: teatro, dança, yoga,… Tudo que der vontade e a ir|realidade permita! (26).

A narrativa supracitada dá a ver um lugar de produção, exibição,formação das artes visuais e sociabilidades,entrelaçando amizade, afetos e interesses construídos por muitas linguagens e fazeres das artes e de linguagens distintas – do vídeo, da culinária ao corpo.

Essa iniciativa de artista acontece na cidade do Recife, em Pernambuco, há pelo menos sete anos (2009), mas é nesse atual contexto que esse espaço multidisciplinar tem ganhado relevância na epiderme da história da arte. Ademais essa iniciativa de artistas se autorrepresenta, como: espaço de resistência, cooperativo, independente e campo de possibilidades aberto ao impossível – dito assim: Tudo que der vontade e a ir|realidade permita!

Antes mesmo de narrar e precisar as práticas e modos de fazer da Maumau sublinho que objetivamente em relação ao modo de operar de artistas por meio de práticas em grupo e ações coletivas, tais práticas não se configuram como fenômenos novos, nem tampouco restritos aos dias atuais (27).Contudo é possível afirmar que por volta da década de 1990 do século vinte o termo coletivo, iniciativas coletivas tornam-se nomenclaturas para classificar, definir, nomear certos agenciamentos e certas práticas associativas. É possível nelas encontrar especificidades, necessidades, discursos e abordagens próprios da arte contemporânea e de seu sistema social (28) (Goto, 2005; Paim, 2009; Lima, 2014).

Nesse sentido a Maumau tem se revelado como uma iniciativa coletiva e colaborativa extremamente diferenciada no meio artístico local e pode-se arriscar dizer queseja um dos únicos espaços das artes visuais, realmente ativador da produção de jovens artistas, quando possibilita encontros para trocas de saberes (formação), na exibição de mostras artísticas, nas sessões de videoarte do chamado programa Cine Cão e na formação continuada em gravura que se materializa em encontros abertos e públicos, aos interessados, para experimentar os modos de fazer gravura na chamada Gráfica lenta. Almoços coletivos são oferecidos, festas, shows e programas de formação em artes para crianças.

Entre esses programas e ações distintas que acontecem na Maumau tem exercido na dinâmica das artes visuais na cidade do Recife um papel de destaque frente ao sistema da arte estabelecido, ao ensino formal das artes visuais e como opção política viável a uma quase inexistente política cultural oficial. Talvez seja o espaço coletivo mais ativador de modos de fazer das artes visuais que tem reverberado na cena artística local como um lugar de resistência aos modelos institucionalizados (museus, galerias, institutos culturais), ao fim das políticas de editais (29).

Grosso modo, a Maumau nasce da parceria afetiva entre o artista Fernando Peres (30) e Irma Brown em 2009. A casa que servia de residência para o casal, era também ocupada pelo ateliê | escritório da artista Daniela Brilhante. Com o passar dos tempos, muitos artistas e grupos passaram por essa iniciativa coletiva como a editora independente, Livrinho de Papel Finíssimo e a Produções Ordinárias. Atualmente o espaço é ‘administrado’ pelas artistas Irma Brown, Lia Letícia e Juliana Freitas. Mas as ações são pensadas e construídas com muitas outras parcerias e por uma rede de afeto.

Há a idéia de resistência que pulsa forte e talvez seja esse ideário que una esses artistas em torno dessa iniciativa das artes visuais. Segundo Lia Letícia, em depoimento informal (31) quando a interroguei sobre o que ela poderia dizer sobre essa idéia que move o espaço a mesma aponta alguns caminhos possíveis para o estabelecimento de correspondências entre a resistência propalada e as atitudes e ações realizadas. Lia Letícia, diz:

“Estarmos nesse espaço físico da cidade, mergulhadas num bairro extremamente comercial e/ou de [intensa] especulação imobiliária: não é fácil de entender ali como um espaço de arte principalmente de arte contemporânea e de artes hibridas. Tem gente que chega e diz: chega estranhei ser aqui nesse bairro…hehehe.  (…) outra coisa, bem mais pessoal, vejo em varias artistas que se agregam de um jeito ou de outro na Maumau é [o entendimento em] trabalhar com uma ideia de arte não exatamente comercial. O fato de não sermos uma Galeria que se ocupa estritamente com a venda revela uma filosofia de poder vivenciar este espaço e de compartilhar. Isso se reflete em inúmeros eventos(alguns, cada vez menos, com apoio estatal, mas, a grande maioria, independentes e gratuitos). (…) Os projetos que realizo ali tem muito a ver com o que acredito ser uma ação, coletiva, de experiência compartilhada e de proposta cultural mesmo”. (Lia Letícia, relato à autora, 2016).

Por meio desse breve fragmento é possível perceber que esses artistas estão envolvidos com o debate sobre o tema da ocupação da cidade e a luta em relação ao direito à cidade, questão essa desnudada no contexto local pela emergência do Movimento Ocupe Estelita (32), ou seja, em particular a narrativa de Lia Letícia nos revela que há um envolvimento dela e de parte dos artistas envolvidos diretamente com a Maumau com a luta política e social por direitos culturais, pelas ocupações, à medida que ocupam uma casa, em um bairro central da cidade marcado pela verticalização e especulação imobiliária. Também há uma valorização das redes colaborativas de sustentabilidade (do grupo) e também pela instituição de outras maneiras de produzir e a circulação dos trabalhos artísticos sem a preocupação com o “mercado de arte”.

(…) [a Maumau] como meu espaço de trabalho e de resistência como trabalhadora de arte (principalmente quando pensamos que nem temos mercado de arte aqui… não nesse sentido galeria, grito da moda da “nova arte”, etc), a Maumau acaba se tornando para mim num suporte mesmo”.(Lia Letícia, relato à autora, 2016).

A Gráfica Lenta
Especificamente a iniciativa da Gráfica Lenta se deu com a integração do artista Maurício Castro ao espaço da Maumau. A Gráfica Lenta fundou um lugar de trocas de saberes, experiências e afetos sem hierarquias formais instituídas. As afinidades entre as pessoas que ali passam são muitas, entreelasa amizade, o afeto e a vontade/desejo desse fazer gravura.  A experimentação com a gravura foi o fio condutor que possibilitou reunir dois grandes amigos. Um vivendo em Meudon/França, Maurício Silva, e o outro no Recife, Maurício Castro. Também, a proposição de instaurar um espaço para a reflexão/operação da gravura foi o mote que juntou artistas das mais diversas gerações do Recife, que ao seu tempo, no seu tempo, de maneira imprevisível, dado ao acaso ou sendo convidados,formou-se uma rede, um dispositivo, um arquivo, um acervo, que  se revelou ao público com uma exposição de gravuras na Maumau e  depois no Sesc Garanhuns (33).

Penso que os trabalhos produzidos, as camadas tênues da vivência de trinta dias entre artistas com suas poéticas e instigações diferenciadas foram re/veladas nessa mostra. Outros sintomas da experiência Gráfica Lenta já se fazem notar, como um dispositivo para o futuro, essa ação impactou e deslocou nosso cotidiano, resta apostar que os aprendizados de como viver junto se farão presentes no amanhã.

Instalar no presente as práticas e as maneiras de fazer no âmbito das representações visuais da gravura representa deslocar das camadas do passado práticas artísticas ancestrais. A arte de gravar, em cada uma das suas técnicas – desde o desenho gravado e/ou esgrafiado em rochedos e em cavernas por indivíduos ao metal, pedra, madeira, linóleo, entre outros – a rigor se apresenta como uma vontade/necessidade dos sujeitos em registrar, marcar, transformar e fazer perpetuar suas experiências e as maneiras de ver e estar no mundo. Essa relação entre o registro, a vida e a arte se entrelaçam na aventura humana.

Tais dimensões da existência se atualizaram na convivência Gráfica Lenta. Foi potencializado o fazer junto, compartilhando saberes, materiais, equipamentos e repertórios comuns a todos, e assim, no que era comum, se tornavam visíveis às singularidades, identidades e ambigüidades artísticas de cada um dos participantes.  A Maumau abriu espaço para um tipo de sociabilidade cuja ideia de trabalho não estava pautada na (des) humanização pelo relógio de ponto, pela pressão do mercado, pelas disputas e concorrências do meio, pela presença de um curador/organizador. Na contramão das práticas do sistema artístico hegemônico da atualidade, a Gráfica Lenta (des)tensionou os sentidos, emitiu novos signos que podem nos ensinar a inventar outras maneiras de viver, como propõe a poética nietzschiana, que apresentou a possibilidade de vivermos como artistas, de encarar a vida como uma matéria-prima na qual vamos imprimindo as formas, cavando mais fundo ou mais raso os contornos, tal como os artistas o fizeram no linóleo. A vida é nossa superfície, devemos “esculpi-la”, criar um estilo, uma forma de viver e dar forma a vida é uma tarefa ética que nos compete como seres humanos. Nisso exercemos nossa condição de liberdade. Somos livres para fazer de nossas vidas uma obra de arte. Instaurar a beleza com todas as suas múltiplas formas.

Eis o saldo provisório da experiência potencializada pela Gráfica Lenta – registros gráficos interessantíssimos de vinte e nove artistas que visitaram e ocuparam a Maumau, Afetos e amizades proclamadas e re-atualizadas, troca de ideias e posições políticas assumidas frente aos acontecimentos atuais, almoços deliciosos compartilhados e uma potência de vontade de continuar experimentando a maneira de ser Gráfica Lenta.

Notas:
(1) Docente no Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco, Curadora independente, Coordenadora do Coletivo de Pesquisa do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães e pesquisadora pós doutoral no Departamento de História da Universidade de São Paulo.

(2) Para participar desse mapeamento você pode entrar em contato por meio do endereço joanasoleil@hotmail.com, enviando imagens, relatos de experiências, textos formais entre outros registros.

(3) Os estudos sobre a História das Artes em Pernambuco vêm se ampliando por pesquisadores vinculados aos Programas de Pós-Graduação em Artes Visuais da UFPE/UFPB (programa que oferece mestrado homologado desde 2010), em História e em Sociologia (com mestrado e doutorado na UFPE). Muita das pesquisas propostas tem se dedicado a analisar grupos e coletivos que se organizaram desde a segunda metade do século XX e foram de certa maneira inspiradores para outros agrupamentos. Podemos verificar certa tendência dos artistas pela organização coletiva. Pode verificar nos trabalhos de Joana D’Arc de Sousa Lima, José Brito Neto, Laura Sousa, Raíza Cavalcanti, entre outros.

(4) Artista plástico e diretor de arte. Nasceu em Recife em 1963. Estudou na Faculdade de Arquitetura da UFPE, mas não chegou a concluir o curso. Desde a década de 1980 realiza exposições individuais e coletivas, no Brasil e em outros países. Em 1989, fundou juntamente com José Paulo, o atelier Quarta Zona de Arte, no Bairro do Recife. Fundou também, em 1996, o atelier coletivo “Torre de Papel”, em Barcelona, e, em 2001, o atelier “Submarino”, juntamente com Isabela Stampanoni, Juliana Notari, Jacaré e Fernando Augusto. Foi Artista Plástico da micro-série “A Pedra do Reino” de Luiz Fernando Carvalho e diretor de arte os clipes da Mundo Livre S.A., “Carnaval inesquecível na cidade alta” e “Laura Bush tem um senhor problema”. Como diretor, realizou o curta-metragem “Claustrofreniformes” e o documentário “Duplo Mortal Parafuso”. Assinou a cenografia da peça teatral de José Paes de Lira Filho e Leandra Leal, “Mercadorias e Futuro”. Realiza atividades pedagógicas voltadas à pintura, desenho e reciclagem. Integrou o Ateliê “Peligro” e recentemente atua no espaço Casa Maumau. Fonte: fundaj.gov.br

(5) O SPA das Artes foi um programa de fomento a produção, formação e exibição das artes que se deu no âmbito da Fundação de Cultura da Cidade do Recife quando da primeira gestão do Partido dos Trabalhadores (PT) na Prefeitura da Cidade. Nasceu de um grupo de artistas que integravam o chamado Coletivo 13 (grupão compostos por artistas, intelectuais das artes e da cultura que se reunião para militar nas campanhas políticas pró PT). Nesse momento parte dos artistas das artes visuais integraram organicamente cargos comissionados no âmbito da estrutura de gestão na cultura e criaram inúmeros programas e ações, além de constituir uma política pública para as artes visuais de fomento à produção artística. O SPA das Artes está entre essas políticas públicas propostas por agentes do campo das artes. Segundo a pesquisadora Raíza Ribeiro Cavalcanti, “a partir da análise do surgimento do SPA, percebemos que ele é fruto de uma movimentação artística no campo da arte do Recife, com o objetivo de inserir, nele, a arte contemporânea. Sendo assim, o SPA é resultado de uma ação política em prol da mudança de uma determinada realidade social. Esta constatação exige de nós que nos detenhamos na observação desta movimentação política que culminou na participação de artistas na esfera da administração pública da cidade”. Entende-se que ocorre uma “conjunção entre ação arte e política na formação do SPA das Artes. Cof. RIBEIRO, Raíza Cavalcanti. SPA das Artes: Entre a Utopia e a ideologia. Uma análise entre práticas  discursivas no interior do SPA das Artes do Recife. Dissertação de Mestrado, Programa de Pós Graduação em Sociologia da UFPE, Recife, 2011.

(6) Conf. FOUCAUT, Michel. Une interview: sexe, pouvoir et la politique de la identité”. (“Michel Foucault, an interview: sex, power and the politics of identity”; entrevista com B. Gallagher e A. Wilson, Toronto, junho de 1982; trad. F. Durant-Bogaert). The advocate, no 400, 7 de agosto de 1984, pp. 26-30 e 58. Esta entrevista estava destinada à revista canadense Body politic. Cof. Em Revista Verve, no. 5, 2004. file:///C:/Users/Joana/Foucault%20Revista%20Verve%20Amizade.pdf. Visitado em 20/08/2016.

(7) Na reflexão sobre o papel da amizade para a inserção política dos indivíduos que atuam em conjunto no espaço público do mundo, o apoio teórico foi encontrado em Francisco Ortega e Hannah Arendt. (ver mais referência sobre esse aporte teórico em PAIM, Cláudia. Coletivos e Iniciativas Coletivas: MODOS DE FAZER NA AMÉRICA LATINA CONTEMPORÂNEA. Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais do Instituto de Artes, como requisito final para obtenção do título de Doutor em Artes Visuais, ênfase em História, Teoria e Crítica da Arte, 2009. O trabalho versa sobre os modos de fazer de coletivos e iniciativas coletivas de artistas ou multidisciplinares na América Latina. Foram estudados coletivos atuantes fora dos espaços tradicionais de arte. Sobre amizade política cof. ORTEGA, Francisco. Amizade e estética da existência em Foucault. Rio de Janeiro: Graal, 1999. __. Para uma política da amizade: Arendt, Derrida, Foucault. Rio de Janeiro: RelumeDumará, 2000. __. Genealogias da Amizade. São Paulo: Iluminuras, 2002.

(8) Artista visual, ativista cultural, pesquisador, crítico, curador e produtor. Atua com diferentes linguagens artísticas e tem trabalhos realizados em espaços abertos da cidade, em circuitos artísticos autônomos e dentro de espaços museológicos e institucionais de arte (Brasil, desde 1991). Coordenador do projeto Circuitos Compartilhados (Brasil, desde 2002) e do projeto de intervenção urbana Galerias Subterrâneas (Curitiba, 2008 e 2009). Mestre em Linguagens Visuais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2004). Especialista em História da Arte do Século XX pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná (2000).  Orientador de fluxos do organismo artístico EPA! Expansão Pública do Artista (desde 2001) e membro do coletivo de artistas E/Ou (2005-2012). Textos publicados em livros, revistas, jornais e websites de arte e cultura – no Brasil, EUA e Espanha – com ênfase na autogestão de circuitos artísticos e nas dimensões políticas do trabalho de arte. Conf. https://newtongoto.wordpress.com/curriculo/. Visitado em 05/02/2017.

(9) Consultar entre outros: Newton, Goto. Sentidos (e circuitos) políticos da arte: afeto, crítica, heterogeneidade e autogestão entre tramas produtivas da cultura. Curitiba, 2005. Conf. em https://newtongoto.files.wordpress.com/2011/01/sentidos-e-circuitos-politicos-da-arte2.pdf, Visitado em 05/02/2017. Ver também: Da paisagem-trouvée ao território inventado: observações sobre os circuitos de arte contemporânea no Brasil. Revista Tatuí n° 0, Recife, 2009 (p. 10-32). Texto publicado também na revista Global Brasil nº 13, versão on-line, Rio de Janeiro, 2010.

(10) Conferir em http://newtongoto.wordpress.com sobre o Circuitos Compartilhados entre outros projetos, textos, artigos escritos para imprensa e periódico especializado em artes e sobre a agência constituída pelo artista, nomeada por EPA. Expansão Pública do Artista – EPA!. Segundo texto retirado do site supracitado a EPA! é: um organismo autogerido de política cultural. Foi fundada em 2001, em Curitiba, motivada pelo desejo de reflexão contextual sobre arte política e ativista nas artes visuais. A entidade é, em princípio, a expansão pública do artista Goto, um eu coletivo. A atuação da EPA! busca identificar, fortalecer e fomentar uma rede de interlocutores e de produção, tanto no ambiente artístico como no social, tendo como fundamento valores associados a uma arte livre, experimental, heterogênea, crítica, contemporânea e de envolvimento social. Além de ser uma tática fundadora da própria ação, a questão da autogestão é um foco recorrente de investigação. Com a EPA! exercita-se um olhar sobre a produção de outros artistas, atribui-se relevância a diferentes contextos produtivos, revolvem-se enunciações históricas, articulam-se redes de parceria, instauram-se campos coletivos para a inserção social da arte e busca-se também estabelecer relações com comunidades tradicionais.O fluxo EPA! materializa-se em diferentes acontecimentos (a partir de cada contexto investigado) e lugares de realização (conforme a singularidade de cada rede de parceria articulada). Três corpos dão suporte ao fluxo: Projetos EPA! Arquivo EPA! e Espacial EPA! Sendo a princípio uma performance-manifesto sobre o artista como um agente político, a EPA! efetivou-se como promotora do encontro coletivo e de trocas culturais, em 10/11/2001, com o evento Uôrk-Xók. Conf. http://newtongoto.wordpress.com/epa/.  Visitado em 05/02/2017.

(11) Sobre uma cartografia das artes plásticas na cidade do Recife conf, Lima, Joana D’Arc de Sousa. Cartografia das Artes Plásticas na Cidade do recife: Deslocamentos poéticos e experimentais. Tese de Doutorado, Programa de Pós Graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco, 2011.

(12) O grupo irá ter uma articulação entre os fazeres artísticos que ocupam o espaço público. Um exemplo para ilustrar esse tema foi uma ocupação das fachadas de prédios antigos no bairro do Recife, área central localizada na Ilha de Santo Antonio, a ocupação se deu por meio de intervenções de pinturas nas fachadas. Outra ação com característica de mediação entre o grupo e poder público foi a proposta do da realização de um Festival denominado Temporal/PE reunindo ações artísticas de diversas linguagens. O evento envolveu show de música, dança e intervenções urbanas.

(13) Sobre o grupo pesquisar a monografia de final de curso de uma das ativistas do grupo, Freitas, Juliana.

(14) O casal promove uma iniciativa artística que tinha como objetivo organizar o primeiro concurso internacional do Mickey Feio. Essa iniciativa tem ressonâncias imprevisíveis e cujos resultados serão selecionados para a Mostra Rio de Arte Contemporânea em 2002.  Serão também convidados em 2004 para participar do 47º. Salão de Arte de Pernambuco, ocorrido nas dependências da antiga Fábrica de Tacaruna em Olinda/PE.

(15) Texto extraído http://gknoronha.com.br/coletivos-de-arte/ visitado em 05/12/2017.

(16) Primeiramente a participação de ambas as pesquisadoras, Laura Sousa e Raíza Cavalcanti se deu pela escrita de um texto pessoal, de memória, mediante meu pedido que elas individualmente contassem suas lembranças sobre a ocorrência da criação do grupo de pesquisa e critica de arte Chamado PIA, que ambas integraram, Também contei com um texto relato de experiência de Laura Sousa decorrente de um encontro de coletivos de artistas no âmbito do evento organizado pelo Centro cultural Brasil Alemanha, em abril de 2016. Conf. texto na integra, http://www.ccba.org.br/noticias/noticia/id/339/ano/2016/mes/11/arte-contemporanea-desejos-de-criacao-e-cidadania.html.

(17) Vale ressaltar que essa parceria só foi possível porque a gestão do Museu por meio da sua Diretora, Beth da Matta, têm sido uma gestão colaborativa com artistas, pesquisadores, galeristas, cozinheiros, entre outros.

(18) Ambos haviam trabalhado juntos em equipe durante a década de 1970 e início de 1980. Depois se separaram e Daniel Santiago continuou trabalhando como servidor público na Prefeitura da Cidade do Recife e Paulo Bruscky, mais articulado no circuito artístico, manteve certas relações com redes de artistas investindo em sua carreira, contudo, pouco reconhecido no Recife e no Brasil. Mas em comparação com Daniel Santiago, esse último conseguiu com seus esforços, redes de amizades e reconhecimento de agentes no campo sua consagração. Daniel Santiago, por meio da atuação do grupo P.I.A, entre outros acontecimentos terá seu reconhecimento pouco mais tardio, apenas em alguns espaços e instancias do campo das artes.

(19) Segundo relato de Laura Sousa o ano de 2011 marca fortemente uma crise política institucional que reverbera na cultura e na organização dos dez anos do SPA Das Artes.

(20) Edson Carlos de Barrus nasceu em Carnaubeira da Penha (PE), em 1962. Formou-se em zootecnia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em 1984. Transfere-se para o Rio de Janeiro onde freqüentou oficinas na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV/Parque Lage), entre 1993 e 1994; e no Museu do Ingá, em Niterói, de 1994 a 1995. Fez mestrado em linguagens visuais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Entre as exposições coletivas de que participou, destacam-se O Artista Pesquisador, no Museu de Arte Contemporânea, Niterói, 1998. Retorna para Recife/PE

(21) Conf. Projetos especulativos de gestão. edson barrus. In Fórum Permanente. São Paulo, 2014. Ver emhttp://www.forumpermanente.org/revista/numero-5/textos/projetos-especulativos-de-gestao. Visitado em 08/02/2017.

(22) Texto apresentado por Laura Sousa, ver na integra http://www.ccba.org.br/noticias/noticia/id/339/ano/2016/mes/11/arte-contemporanea-desejos-de-criacao-e-cidadania.html. Visitado em 03/11/2016.

(23) Esse fragmento foi retirado do texto de Laura Sousa já mencionado. Esse texto versa sobre texto foi escrito abril para o CCBA sobre um encontro entre coletivos e espaços colaborativos do Recife que ocorreu nas dependências do CCBA. No texto há informações sobre a Casa da Rua, a Mau Mau, Caso do Cachorro Preto, Coletivo Expográfica e outros grupos.  A produtora Colaborativa PE contou com o depoimento, nesse evento citado, de Pedro Jatobá e Carlos Luna.

(24) Construído em 1953, o Edifício Pernambuco é produto da arquitetura modernista das capitais brasileiras que durante os anos cinquenta e sessenta tinha o centro das cidades como sua região nevrálgica. O edifício foi erguido durante o processo de feitura da Avenida Dantas Barreto, uma das principais vias nas teias que formam o centro comercial da capital pernambucana, fazendo parte do processo de reestruturação desta região em 1950. Na década de 1970 as metrópoles brasileiras sofreram uma mudança na localização de atividades de comércio e serviços mais valorizados economicamente, que migraram das áreas centrais das cidades para outros bairros, transformando as regiões centrais em áreas desvalorizadas, por não serem mais alvo de interesse do setor imobiliário, apenas do comércio popular.Cof. Janotti, Jeder Silveira Junior; Almeida, Laís Barros Falcão. Edifício Pernambuco: espacialidades da música ao vivo no projeto ExcentriCidades através de uma constelação de conceitos. http://www.compos.org.br/biblioteca/arquivocompleto_2859.pdf. Consultado em 05/12/2016.

(25) Você pode o acervo da revista em https://issuu.com/tatui. O primeiro número do periódico saiu no ano de 2005 juntamente com a dinâmica do Spa das Artes. O segundo número foi editado e publicado em 2006, esse número já saiu com apoio da Prefeitura da Cidade do Recife. Sua continuidade foi possível também com incentivos da lei de Incentivo à Cultura do Estado de Pernambuco – Funcultura/PE.

(26) Texto “autorretrato” extraído da página da plataforma virtual  Facebook da Maumau, cof. em https://www.facebook.com/Maumau315177521859114/about/?entry_point=page_nav_about_item&tab=page_info, Visitado em 19/09/2016.

(27) Pode-se dizer, entretanto, que desde o início do século XX eles possuem uma configuração diferenciada quanto ao modelo tradicional de ateliê onde havia uma figura predominante – o mestre – e os discípulos. Passando, então, a existir grupos com estrutura não hierarquizada pelos papéis de professor-aluno. Alguns destes, inclusive, são como influências ou precursores internacionais dos coletivos contemporâneos na América Latina. Assim, se pode apontar alguns como exemplos: Grupos dadaístas, Group de Recherche d’ArtVisuel – GRAV, 1960/1968, Paris. Fluxus, fundado em 1962, na Alemanha; Art&Language, surgiu em 1968. Grupo de artistas radicados na Inglaterra e nos Estados Unidos que não realizavam uma separação entre o artista e o crítico. Sustentavam que a prática artística deveria estar identificada com o terreno da linguagem, com a leitura e a escrita e realizaram trabalhos de viés conceitual. Editaram a revista Art-Languagee o núcleo de Nova York publicou ainda a The Fox. Participantes: Terry Atkinsos, David Bainbridge, Michael Baldwin e Harold Hurrell. Com o lançamento em 1969 da Art-Language, atraíram outros artistas e Guerilla Girls, iniciado em 1985, continua atuando e é radicado em Nova York, EUA Grupo de mulheres que combate a discriminação contra o sexo feminino e os privilégios masculinos no campo das artes. Buscam também fazer revisões na história da arte com o resgate de artistas mulheres, bem como compreender as influências do discurso masculino nesta história. Participantes: as artistas não divulgam suas identidades e quando realizam manifestações públicas usam máscaras de gorilas. Cof. CLAUDIA PAIM. COLETIVOS E INICIATIVAS COLETIVAS: MODOS DE FAZER NA AMÉRICA LATINA CONTEMPORÂNE.  Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais do Instituto de Artes, sob orientação da Profª. Drª Blanca Brites, como requisito parcial e final para obtenção do título de Doutor em Artes Visuais, ênfase em História, Teoria e Crítica da Arte. (2009).

(28) Vale a pena ler a tese de doutoramento da artista, pesquisadora e docente Cláudia Pain que realizou uma pesquisa muito séria e instigante sobre o tema tratado aqui

(29) Nessa perspectiva da atuação de iniciativas e agenciamentos coletivos independentes é importante citar outro lugar que há aproximadamente quatro anos vem expondo a produção de jovens artistas e consagrados no meio local. O lugar chama Casa do Cachorro Preto é situada em Olinda/PE. Organizada por jovens artistas que atuam na produção das artes gráficas e da música nesse período já aconteceu rolou por lá exposições de artistas locais no espaço da Galeria, há uma lojinha permanente, que tem trabalhos que são frutos das exposições ocorridas, entre outros produtos gráficos como posters, reproduções, camisas, quadros, imãs, itens de tabacaria, livros. O quintal da casa é o palco para bandas, DJs, audição de discos, exibição de filmes, festas e trocas de idéias. O bar funciona sempre com cerveja gelada e pronto. A Casa do Cachorro Preto se dedica a mostrar artistas que trabalham com ilustração e as artes gráficas de maneira geral. Entre os artistas (iniciantes e consagrados) que mostraram seus trabalhos podemos citar: Raoni Assis (fundador), Beth Mendes, DaanielAraujo, Raul Córdula, Maurício Castro, Joana Liberal, Bozó Bacamarte.

(30) Fernando Peres é um artista da geração 1990 que integrou vários coletivos e iniciativas coletivas, entre esses o Molusco Lama (Olinda), depois manteve individualmente um espaço de produção e eventos chamada a Menor Casa de Olinda, abrigando atividades plurais e diálogos que estimulavam a produção local e o intercâmbio entre artistas e público. Passou pelo Submarino Ateliê Coletivo (início dos anos 2000), a Maumau e atualmente é o gestor do espaço cultural Lebiens Bar, o qual já foi reconstruído na mostra sediada no Itaú Cultural (2011), caos e Efeito sob curadoria de Paulo Herkenhoff e os cocuradores Cayo Honorato, Clarissa Diniz e Orlando Maneschy. Em 2012, Fernando Peres sai da Maumau para abrir o Lesbian Bar. Irma Brown continuou a residir no local, sendo já a maior parte do espaço destinada para ateliês e atividades relacionadas a iniciativa coletiva Maumau.

(31) Depoimento da artista Lia Letícia cedido informalmente pelo Facebook em mensagem privada para a autora em 25/09/2016.

(32) Política e o direito ao espaço público se tornaram temas fundamentais no ano de 2012 com a revelação de um esquema fraudulento no leilão em que o terreno onde se encontram os armazéns do Cais José Estelita (Recife) foi vendido a um conjunto de empreiteiras (consórcio Novo Recife) para a construção de 40 torres residenciais e empresariais em um projeto paisagístico que em nada dialoga com o processo histórico e arquitetônico da cidade. Diversos movimentos civis se organizaram em torno dos atos de ocupação da área, artistas das mais diferentes vertentes e linguagens se articularam na promoção de atividades no Ocupe Estelita e em muitos outros espaços artísticos públicos e particulares, em práticas individuais e coletivas. Cof. https://www.facebook.com/MovimentoOcupeEstelita. Visitado em Dez, 2016. Em seu texto de apresentação na página facebook, segue a seguinte descrição do movimento: O Movimento #OcupeEstelita luta contra um modelo de desenvolvimento urbano guiado apenas por interesses econômicos, que destrói a identidade de nossa cidade e promove uma ideia ultrapassada de progresso e modernização. Vários grupos, coletivos e movimentos sociais estão juntos na luta pelo nosso Recife. Unid@s, nos erguemos contra o urbanismo segregador e suas conseqüências hostis para a cidade.Desejamos uma cidade mais inclusiva, que respeite pedestres, ciclistas, usuári@s de transporte público, ambulantes, pessoas sem-teto, quem sofreu remoção pela Copa 2014, morador@s de áreas de baixa renda, mulheres, homens, LGBTs e dissidentes, crianças, adolescentes, e outros grupos sociais estigmatizadas na sociedade. Lutamos por uma cidade que preserve o meio-ambiente, os recursos naturais, a cultura, a história, a memória, as identidades e, principalmente, pelos direitos mais básicos da população.

(33) Exposição Coletiva Gráfica lenta.